A narrativa histórica do Partido dos Trabalhadores de combate intransigente às privatizações e em defesa do Estado forte sofreu um golpe devastador com as recentes revelações sobre a negociação da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) e do cartão Credcesta. A operação de desestatização conduzida pela cúpula petista na Bahia expôs uma contradição flagrante entre a retórica de comício e a prática administrativa, resultando em um pesado prejuízo para o contribuinte e no favorecimento direto de um conglomerado financeiro privado.

Conduzida em 2018 na gestão do ex-governador Rui Costa com forte articulação do então secretário Jaques Wagner, a venda da estatal rendeu apenas R$ 15 milhões aos cofres baianos. O valor obtido, contudo, revelou-se um péssimo negócio para a gestão pública: os passivos e dívidas deixados pela Ebal e assumidos pelo Estado da Bahia já somam R$ 93 milhões — cifra seis vezes superior ao montante arrecadado com o leilão de privatização.

Além do rombo financeiro herdado pela população baiana, a privatização promovida pelo PT serviu de trampolim e “mina de ouro” para o setor financeiro. Logo após a entrega do ativo estatal, decretos estaduais foram editados pela gestão petista para garantir regalias ao comprador do Credcesta, transformando o antigo cartão de compras em uma plataforma de empréstimos consignados com juros astronômicos cobrados diretamente na folha dos servidores. A estrutura gestada na desestatização baiana alavancou os negócios do empresário Augusto Lima e impulsionou a expansão do Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro.

O episódio escancara a hipocrisia de um discurso que condena a entrega de patrimônios públicos ao mercado quando conveniente para a militância, mas que, no comando do poder, não hesitou em privatizar, deixar um rastro de endividamento milionário para o erário e criar um ambiente monopolista de crédito em benefício do grande capital privado.