O xadrez político das Eleições de 2026 em Mato Grosso costuma expor a rapidez com que discursos inflamados e convicções “inabaláveis” se moldam aos interesses do momento. O exemplo mais recente dessa metamorfose vem do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), que protagonizou uma mudança drástica de tom ao tentar justificar os novos contornos e alianças em torno do palanque conservador no estado.

Ao comentar a construção da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República e os eventuais atritos internos dentro do PL mato-grossense, Abílio minimizou os conflitos e adotou uma postura surpreendentemente apaziguadora, afirmando que a postulação de Flávio tem o condão de harmonizar até mesmo forças historicamente antagônicas:

“O apoio ao Flávio Bolsonaro é um projeto nacional que une até adversários aqui em Mato Grosso.”

A fala, no entanto, contrasta de forma ruidosa com a trajetória e os posicionamentos recentes do próprio gestor da capital. Durante anos — e em especial nos embates de campanhas passadas —, Abílio fez da rejeição absoluta a partidos tradicionais como o MDB uma de suas principais bandeiras de propaganda. Em declarações categóricas, o prefeito cansou de rechaçar qualquer tipo de aproximação ou composição com os emedebistas e legendas do centro, taxando-os como incompatíveis com seu modelo de gestão.

Agora, diante da ameaça de punições partidárias por desalinhamentos internos, Abílio garante não temer represálias da cúpula do PL ao justificar que a causa nacional sobrepõe-se às brigas regionais.

Diante de guinadas tão bruscas no discurso — que vão do rechaço intransigente à pregação da “harmonia entre adversários” —, cabe ao leitor e ao eleitor avaliar: Abílio Brunini está sendo sinceramente pragmático em nome de um projeto nacional ou está simplesmente adaptando a narrativa por segundas intenções, ao perceber que a montagem de suas bases e a chapa para a Assembleia Legislativa correm o risco de naufragar na reta final das convenções?