As fissuras internas no Supremo Tribunal Federal (STF) ganharam contornos explícitos no plenário da Corte. Em um pronunciamento carregado de recados diretos de bastidor, o presidente do tribunal, ministro Edson Fachin, elevou o tom da cobrança sobre o colega Alexandre de Moraes e sinalizou que o polêmico inquérito das fake news — que se arrasta há mais de sete anos — precisa ser submetido ao crivo de todos os ministros e ter um desfecho definitivo.

A manifestação de Fachin ocorreu logo na abertura da sessão plenária e funcionou como uma resposta institucional à péssima repercussão provocada por uma decisão monocrática de Moraes. A pedido do ministro Flávio Dino, o relator determinou operações da Polícia Federal que miraram o jornalista e a fonte de uma reportagem que revelou o uso de veículos oficiais e estrutura pública pela família de Dino no Maranhão. A quebra de sigilo de fonte e o uso do inquérito para blindar interesses individuais dos próprios magistrados acenderam críticas severas sobre violações à liberdade de imprensa e abuso de prerrogativas.

Sem citar nominalmente Alexandre de Moraes, Fachin foi enfático ao defender que qualquer investigação envolvendo a segurança de membros do tribunal não pode funcionar como um instrumento isolado de poder individual. O presidente cravou que adotará providências regimentais para que casos dessa natureza sejam julgados pelo plenário, reforçando que a verdadeira força e legitimidade da Corte residem na colegialidade, e não em canetadas individuais tomadas sob segredo de justiça.

O movimento de Fachin dá voz ao descontentamento crescente de uma ala expressiva de ministros que se sentem desconfortáveis com a perpetuação do inquérito, historicamente apelidado por críticos de “inquérito do fim do mundo”. A avaliação de bastidor é que o procedimento, criado em 2019 sob o pretexto de conter ataques institucionais, extrapolou seus limites originários e passou a servir como ferramenta de intimidação e controle político.

Ao resgatar o alerta de que o remédio não pode se transformar em veneno, o comando do STF expõe o isolamento gradual de Moraes na condução das apurações extraordinárias. A cobrança pública coloca o relator contra a parede e sinaliza que a cúpula do Judiciário enfrenta uma encruzilhada moral entre preservar a liberdade de imprensa e a legalidade constitucional ou continuar refém de inquéritos perpétuos que desgastam a imagem da mais alta corte do país.