À medida que os autos da Operação Heritage ganham transparência no Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) desmuda a verdadeira arquitetura financeira por trás do escândalo de R$ 308 milhões originado no acordo tributário com a operadora Oi. Longe de se limitar a uma simples transação administrativa ou controvérsia jurídica entre o Estado de Mato Grosso e a empresa privada, os relatórios da PF apontam a atuação decisiva do empresário do agronegócio Joci Piccini no financiamento e na estruturação dos fundos de investimento utilizados para triangular a propina.
De acordo com as apurações levadas ao gabinete do ministro Flávio Dino, Piccini e estruturas financeiras sob seu controle atuaram como peças-chave na garantia de liquidez da operação. Ao aportar dezenas de milhões de reais em fundos de investimento em participações (FIPs) configurados em cascata, o megaempresário viabilizou a compra dos créditos com deságio e a subsequente movimentação das cifras por múltiplas camadas. Essa engenharia elaborada visava disfarçar a origem pública do dinheiro até que ele aportasse de forma refinada no patrimônio privado de empresas ligadas ao ex-governador Mauro Mendes, à ex-primeira-dama Virgínia Mendes e a aliados do núcleo duro governista.
A participação do empresário do agro desmonta a narrativa de que as transações seriam meros aportes de mercado. A PF aponta indícios contundentes de que os fundos alimentados pela família Piccini serviram de “duto lavador” para quitar favores e repassar dividendos do esquema a familiares dos agentes públicos que viabilizaram a tramitação atípica e recorde na Procuradoria-Geral do Estado (PGE-MT).
Diante do volume de provas e das movimentações atípicas apontadas pelos órgãos de controle financeiro, o STF determinou o bloqueio de R$ 316 milhões de bens dos alvos e a apreensão de passaportes. A revelação do elo do agronegócio na trama aprofunda o impacto político das apurações em Mato Grosso, evidenciando que a dita “solução de passivos estaduais” serviu, na verdade, para unificar interesses de grandes capitais do interior com o projeto de enriquecimento do grupo que comandou o Palácio Paiaguás.
