Se a política em Mato Grosso costuma ser imprevisível, as últimas 72 horas exigiram estômago forte até mesmo dos analistas mais tarimbados. O encerramento do prazo para as convenções partidárias produziu uma reviravolta digna de roteiro de cinema no arco governista. Em um intervalo de três dias, a composição da chapa majoritária liderada pelo União Brasil e pelo Republicanos passou por uma metamorfose completa, deixando para trás atropelos, mágoas e acomodações táticas que transformaram o ex-secretário de Fazenda Rogério Gallo e o empresário Elson Ramos nos grandes personagens dessa dança das cadeiras.
A trajetória de Rogério Gallo (União Brasil) nas últimas horas ilustra perfeitamente a volatilidade do Palácio Paiaguás. Inicialmente imposto de forma monocrática pelo ex-governador Mauro Mendes para ser o candidato a vice-governador na chapa de Otaviano Pivetta (Republicanos), Gallo durou pouco na função diante do racha iminente na base. Horas depois, para acomodar a entrada de Fábio Garcia na vice, o ex-gestor da Sefaz acabou remanejado para a primeira suplência na chapa ao Senado encabeçada por Mauro. No entanto, ao apagar das luzes do processo negocial, a vaga evaporou das suas mãos: em menos de três dias, Gallo foi de vice-governador a primeiro suplente e, finalmente, acabou completamente fora da disputa eleitoral de 2026.
Já o empresário Elson Ramos, dono do grupo Ditado Popular e destaque na reestruturação dos shows da Exposul, protagonizou uma virada ainda mais impressionante no tabuleiro político. Após o Podemos classificar como uma verdadeira “humilhação” a proposta inicial do grupo governista — que oferecia apenas a segunda suplência ao Senado —, Ramos foi alçado na noite de segunda-feira ao posto de candidato próprio do partido ao Governo de Mato Grosso. O balão de ensaio e a ameaça de candidatura própria serviram como moeda de valorização extrema.
No sprint final dos acordos, a cúpula do Podemos e o grupo de Mauro Mendes voltaram à mesa de negociações para selar a paz. O resultado da engenharia partidária foi a guindança de Elson Ramos: o empresário, que havia rejeitado veementemente a segunda suplência e se colocado na disputa ao Governo, abandonou o projeto ao Paiaguás e acabou confirmado exatamente como o segundo suplente ao Senado na chapa de Mauro Mendes — ocupando a vaga que minutos antes pertencia a Rogério Gallo.
A intensa movimentação das peças expõe o nível de barganha e o pragmatismo que ditaram o fechamento das atas eleitorais em Mato Grosso. Ao reacomodar o Podemos na primeira suplência e rifar um de seus nomes mais técnicos do secretariado, Mauro Mendes tentou estancar a sangria de aliados e garantir palanque unificado, enquanto Elson Ramos consolida sua estreia na política tradicional pulando direto para a linha de frente do projeto ao Congresso Nacional.
