O Palácio Paiaguás e a cúpula da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra) decidiram subir o tom e adotar uma postura de aparente rigidez contra os erros na execução de obras públicas. O governo oficializou o rompimento de contratos, abriu processos administrativos contra servidores e encaminhou um volumoso dossiê técnico ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) expondo uma série de falhas graves cometidas por uma empreiteira contratada para pavimentação asfáltica. A movimentação burocrática, contudo, carrega um forte componente cronológico que não passa despercebido pelos bastidores políticos: a Sinfra vinha notificando administrativamente a empresa de forma silenciosa desde o ano de 2023, mas a canetada firme só ganhou publicidade agora.
A súbita energia governamental para punir a empresa e fiscalizar os contratos coincide cirurgicamente com a proximidade do período eleitoral de 2026 e o crescimento de um desgaste de imagem avassalador. O chamado escândalo do “asfalto sonrisal” — pavimentações recém-entregues que começaram a esfarelar, abrir crateras e se desintegrar com as primeiras chuvas — rompeu as barreiras dos gabinetes técnicos e ganhou as manchetes dos principais veículos de imprensa do estado. Ao se transformar no principal combustível do debate político e em munição pesada nas mãos da oposição, a qualidade das obras públicas colocou a atual gestão em uma incômoda posição defensiva.
O dossiê enviado ao órgão de contas tenta construir uma narrativa de blindagem para o governo, carimbando a empresa privada como a única e exclusiva culpada pelas irregularidades e pela baixa qualidade do material aplicado nas rodovias. Ao mesmo tempo, a Sinfra colocou servidores e fiscais sob investigação interna para demonstrar que não haverá complacência com a falta de rigor na vigilância do dinheiro público. O que o núcleo duro do governo tenta abafar com o ruidoso pacote de punições é a leniência dos anos anteriores, já que o problema era de pleno conhecimento da pasta há pelo menos três temporadas e nenhuma medida drástica havia sido tomada até então.
Para analistas de bastidores, a reação tardia, embora tecnicamente necessária, funciona como uma clara operação de controle de danos eleitorais. O endurecimento das regras e a exposição pública da empreiteira servem para tentar desvincular a imagem do governador Otaviano Pivetta e de seus candidatos aliados das falhas estruturais que revoltaram os motoristas e moradores do interior. Resta saber se o eleitorado e os órgãos de controle enxergarão a ação como um ato de responsabilidade fiscal legítima ou apenas como uma encenação jurídica de última hora para limpar os respingos de lama e piche que ameaçam os palanques governistas na disputa que se aproxima.
