A recente e histórica decisão da administração de Donald Trump em classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) inseriu o Brasil em um restrito e incômodo mapa geopolítico desenhado por Washington. O uso do “selo” de terrorismo pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos como ferramenta de asfixia econômica e pressão internacional na América do Sul segue uma cartilha estratégica que, ao longo das últimas décadas, concentrou suas garras em quatro países específicos do continente: Colômbia, Peru, Venezuela e, agora, o território brasileiro.
O monitoramento das designações norte-americanas revela como os critérios do Departamento de Estado migraram de motivações ideológicas da época da Guerra Fria para o combate ao “narcoterrorismo” e às estruturas estatais ou paraestatais que ameaçam os interesses de Washington na América Latina.
Abaixo, o histórico de como as classificações oficiais dividem-se entre as quatro nações sul-americanas:
Colômbia e o laboratório das designações continentais
A Colômbia foi o foco central do orçamento de segurança americano no continente por mais de duas décadas. O país teve três grandes organizações listadas por Washington na categoria de Organizações Terroristas Estrangeiras:
- Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia): Incluída na lista negra em 1997, a guerrilha marxista foi sufocada por sanções americanas até 2021, quando o selo foi revogado após o desarmamento decorrente dos acordos de paz. O governo americano, contudo, manteve a tarja ativa para as suas dissidências operacionais (Farc-EP e Segunda Marquetalia).
- ELN (Exército de Libertação Nacional): Também designado em 1997, o grupo guerrilheiro de orientação castrista segue ativo na lista devido a ataques armados, sequestros e controle de rotas internacionais de escoamento de cocaína.
- AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia): O violento grupo paramilitar de extrema-direita e anticomunista foi classificado como organização terrorista em 2001 devido a massacres civis e conexões com o narcotráfico, sendo retirado da lista anos após sua desmobilização.
Peru e o terror ideológico nos Andes
- Sendero Luminoso: A organização guerrilheira de inclinação maoísta, que espalhou o terror e banhou o Peru de sangue nas décadas de 1980 e 1990, recebeu o selo de organização terrorista estrangeira pelos EUA em 1997. Embora a estrutura principal tenha sido desarticulada, remanescentes armados que atuam no Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (Vraem) integrados ao tráfico de cocaína mantêm o grupo sob o radar ativo de sanções americanas.
Venezuela e a mira no regime de Caracas
- O Alinhamento Estatal com Grupos Radicais: No caso da Venezuela, a abordagem de Washington ganhou contornos de sanções de Estado. O governo americano aplicou sanções severas e classificou indivíduos do alto escalão do regime de Nicolás Maduro e o grupo Hezbollah (que possui células operacionais e de lavagem de dinheiro na região da Tríplice Fronteira e em solo venezuelano) como apoiadores do terrorismo global. Além disso, os EUA acusam formalmente o cartel dos Soles — composto por militares venezuelanos — de atuar em parceria com as dissidências das Farc, utilizando a estrutura governamental para facilitar o narcoterrorismo no continente.
Brasil e a nova era do combate às facções criminosas
A entrada do Brasil no mapa com o PCC e o CV representa uma quebra de paradigma histórica na doutrina de segurança externa dos Estados Unidos. Pela primeira vez no continente sul-americano, o selo de organização terrorista deixa de ser aplicado a grupos que nasceram com bandeiras revolucionárias ou político-ideológicas e passa a mirar cartéis de drogas tradicionais.
A medida unifica o tratamento penal e financeiro dessas facções ao das guerrilhas colombianas e peruanas. Na prática, a canetada de Washington transforma as fronteiras secas do Brasil, incluindo as rotas que cortam Mato Grosso, em zonas de interesse direto da inteligência americana, redesenhando as regras do jogo no combate ao crime organizado e elevando a fervura da polarização política nas eleições que se aproximam.
