O discurso de tolerância zero contra o crime organizado, que vinha sendo a principal vitrine político-eleitoral do ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência, Ronaldo Caiado (União), sofreu um duro revés técnico e institucional. Relatórios de auditoria e investigações sigilosas revelaram que a gestão do governo goiano efetuou repasses que somam R$ 340 milhões a um grupo empresarial de transporte coletivo fortemente ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O volume milionário de dinheiro público foi injetado diretamente em empresas que operam na Região Metropolitana de Goiânia e que, segundo as autoridades, funcionam como peças-chave na engrenagem de lavagem de dinheiro da facção paulista.

O rastro do dinheiro envolve subsídios governamentais e contratos de concessão pública destinados ao custeio e congelamento da tarifa do transporte público de passageiros. No entanto, investigações do Ministério Público e da Polícia Civil apontam que os reais controladores de parte do consórcio beneficiado são testas de ferro e operadores financeiros do PCC. A organização criminosa utilizava a robusta e capilarizada estrutura do sistema de transporte de ônibus para misturar o dinheiro lícito dos repasses estatais e das passagens com os dividendos bilionários oriundos do tráfico internacional de drogas, blindando o capital ilegal.

A revelação do escândalo jogou uma cortina de fumaça sobre a recente agenda internacional de Ronaldo Caiado em Washington, onde o goiano celebrou a canetada histórica do governo americano em classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais. A oposição na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) agiu rápido e começou a articular a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para devassar os contratos da Secretaria de Estado de Infraestrutura e os balancetes da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC). Parlamentares cobram explicações imediatas sobre a total falta de conformidade e de fiscalização prévia do Estado na contratação das empresas.

Diante do racha nos bastidores e do desgaste de ver o cofre do Estado alimentando a maior facção do país, a cúpula do Palácio das Esmeraldas tenta desenhar uma estratégia de contenção de danos. Interlocutores de Caiado argumentam que os contratos de transporte são concessões antigas e que os repasses técnicos foram feitos com base em leis de subsídio aprovadas pelo parlamento, sem o conhecimento do envolvimento oculto das facções. Até que o governo de Goiás consiga rescindir administrativamente os contratos com o consórcio contaminado pelo crime e provar que foi ludibriado pelos testas de ferro, a tese de “Goiás seguro” continuará sob forte bombardeio, enfraquecendo a narrativa nacional do governador para a disputa majoritária.