A investigação sobre os desvios milionários na saúde pública de Mato Grosso atingiu um ponto de virada definitivo. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde, instaurada na Assembleia Legislativa, elevou o tom das apurações ao transferir formalmente o caso da esfera administrativa para o campo criminal. O avanço técnico é amparado pelos depoimentos dos delegados José Ricardo Garcia Bruno e Henrique Trevisan, integrantes da Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor). As autoridades policiais foram convocadas para detalhar a engrenagem de fraudes contratuais e repasses de recursos que operavam sem o devido processo de licitação.

O escândalo, que coloca gestores sob forte pressão jurídica, é rastreado desde 2021, quando a primeira fase da Operação Espelho foi deflagrada pela Deccor. A ação policial teve como ponto de partida uma série de denúncias sobre os gastos sem concorrência da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) durante o pico da pandemia da Covid-19, em 2020. Contudo, a apuração continua ativa porque o ralo do dinheiro público não parou com o fim da crise sanitária: o volume de pagamentos indenizatórios fraudulentos a fornecedores do governo continuou crescendo e já ultrapassa a impressionante marca de R$ 1,1 bilhão.

Os detalhes extraídos das quebras de sigilo e das mensagens interceptadas pela polícia revelam um cenário de escárnio com a estrutura hospitalar. Médicos e empresários do setor de saúde foram flagrados negociando a divisão de recursos públicos e articulando o favorecimento de empresas em aquisições estaduais. Em um dos trechos mais graves da apuração, as conversas revelaram a simulação de internações de pacientes em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) que nunca existiram, uma manobra criminosa desenhada exclusivamente para inflar as faturas e arrancar mais repasses do Estado.

A blindagem de bastidores que protegia o alto escalão começou a ruir com o cronograma agressivo de oitivas liderado pelo presidente da CPI, o deputado Wilson Santos (PSD). Após esgotar os depoimentos técnicos de auditores da Controladoria-Geral do Estado (CGE) e de membros da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), o cerco agora se fecha sobre o núcleo de comando da época. O procurador Fellipe Tomaz Borges, peça-chave nos contratos de 2018 a 2021, já prestou esclarecimentos, e o depoimento do procurador-geral Francisco de Assis Lopes está agendado para o próximo dia 10. Com os depoimentos dos delegados materializando o elo criminal do esquema, a comissão se prepara para responsabilizar judicialmente os envolvidos no maior desvio da saúde da história recente do estado.