O Departamento de Estado dos Estados Unidos chocou o cenário geopolítico e a segurança pública da América Latina ao anunciar oficialmente que passará a classificar as duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas estrangeiras. O comunicado, assinado pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, eleva as quadrilhas ao mesmo patamar jurídico e de sanções ocupado por grupos extremistas globais como a Al-Qaeda e o Hezbollah.
As duas organizações receberão a dupla tarja de “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGTs) e “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTOs). A medida, que entra oficialmente em vigor a partir do dia 5 de junho de 2026, foi justificada pela Casa Branca sob o argumento de que as atividades dessas facções há muito tempo transbordaram as fronteiras do Brasil, alcançando outros países da América do Sul e operando ativamente na engrenagem de narcotráfico e lavagem de capitais dentro do próprio território dos Estados Unidos.
O que muda na prática: O cerco financeiro e penal de Washington
Com a canetada de Washington, o governo americano ganha superpoderes legais para sufocar as ramificações internacionais do PCC e do CV. As principais mudanças estruturais incluem:
Bloqueio de Bens: Quaisquer ativos, contas bancárias, imóveis ou recursos financeiros vinculados direta ou indiretamente às facções ou aos seus membros em solo americano serão sumariamente congelados. YouTube
- Criminalização de Apoio: Torna-se crime federal nos EUA fornecer “apoio material”, serviços, armas ou suporte logístico a essas facções. Instituições financeiras internacionais e indivíduos que realizarem transações com o PCC ou o CV ficam sujeitos a sanções econômicas severas, multas milionárias e extradição.
- Barra de Vistos e Deportação: Membros das facções e seus familiares diretos perdem o direito de ingressar nos Estados Unidos, tendo seus vistos cancelados e, caso já estejam em território norte-americano, ficam sujeitos a processos de deportação imediata e sumária.
- Ações de Inteligência e Caça Global: A classificação abre caminho para que agências de elite americanas, como a CIA, o FBI e a DEA, utilizem ferramentas avançadas de monitoramento cibernético e quebra de sigilo financeiro global para rastrear as lideranças do crime organizado brasileiro.
Bastidores e o Trunfo Eleitoral da Oposição
O anúncio de Marco Rubio ocorreu estrategicamente um dia após uma reunião de alto nível na Casa Branca envolvendo o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e o próprio presidente Donald Trump no Salão Oval. A oposição brasileira vinha municiando a Casa Branca com dossiês detalhados, tentando ligar a atuação das facções a grupos do Oriente Médio.
Para analistas políticos, a medida representa um estrondoso trunfo eleitoral para Flávio Bolsonaro, que pretende usar a chancela de Washington como combustível para o seu palanque de segurança pública, vendendo a narrativa de que foi o responsável por isolar internacionalmente os cartéis brasileiros. Flávio já aproveitou o momento para anunciar que, caso eleito, integrará o Brasil ao “Escudo das Américas”, uma aliança internacional de combate militarizado ao crime organizado.
Contudo, analistas de relações internacionais alertam que a medida pode se transformar em um “tiro no pé” para a própria direita. O tema tende a bater de frente com o eleitorado conservador à medida que a população começar a compreender os riscos reais de uma flexibilização da soberania nacional, já que a classificação como terrorismo internacional abre precedentes perigosos na legislação americana. A polarização pode inclusive ampliar a vantagem do senador Wellington Fagundes (PL), que conta com o suporte de bastidor da família Campos em Mato Grosso e desponta como um nome de conciliação menos exposto às turbulências diretas desse racha internacional.
A Reação de Vidro do Governo Lula: Soberania ou Intervenção?
No Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, a decisão da administração Trump caiu como uma bomba diplomática e foi recebida como uma clara derrota política e uma interferência indevida na soberania do país. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, vinha tentando pessoalmente barrar a medida junto a Rubio em reuniões diplomáticas, sob o argumento técnico de que PCC e CV não se enquadram no conceito legal de terrorismo por não possuírem motivações ideológicas ou políticas, mas sim fins puramente lucrativos através do crime comum.
O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Celso Amorim, reagiu de forma dura, afirmando que a intromissão americana não ajuda o Brasil. “Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”, disparou o diplomata.
Nos bastidores do PT, ministros de Lula contra-atacaram a investida bolsonarista com ironia. Interlocutores do governo federal começaram a questionar publicamente se a régua rigorosa de Washington também será aplicada para classificar as milícias do Rio de Janeiro como grupos terroristas, ironizando a proximidade histórica de setores da oposição com esses grupos armados. O Planalto teme que o carimbo de “terrorista” sirva de pretexto para que o governo Trump imponha barreiras comerciais a produtos brasileiros ou realize operações unilaterais na costa do país, arranhando a autonomia do Estado brasileiro e transformando a segurança nacional em um palco de guerra fria americana.
