O governador Otaviano Pivetta parece ter sido acometido por uma amnésia administrativa conveniente desde que assumiu a cadeira principal do Palácio Paiaguás. Ao subir no palanque para criticar a destinação de verbas para eventos e shows, Pivetta ignora o pequeno detalhe de que foi o vice-governador de Mato Grosso nos últimos oito anos, período em que o estado abriu as torneiras para produções milionárias. O discurso de “agora o foco é o social” soa como música desafinada para quem lembra que ele participou ativamente da gestão que projetou o Parque Novo Mato Grosso, uma estrutura gigantesca voltada justamente para… eventos.

A contradição foi o prato principal servido pelo senador Wellington Fagundes, que não perdeu a chance de cutucar a ferida do Governador e pré-candidato. Fagundes questionou abertamente se o ex-titular Mauro Mendes estava errado, já que Pivetta agora tenta desmontar o legado que ele mesmo ajudou a construir. Para os observadores políticos, a manobra de Pivetta é clara: ele tenta se descolar da imagem de “gastador” da gestão anterior para pavimentar seu caminho em 2026, agindo como se tivesse acabado de chegar de Marte e não tivesse nada a ver com as escolhas que priorizaram as festas e os holofotes em detrimento das delegacias e do Samu.

Essa metamorfose de Pivetta — de vice silencioso a crítico fervoroso — coloca em xeque a coerência do seu governo temporário. Ao atacar o Fethab 2 e condenar a “indústria do show”, ele acaba atirando no próprio pé, já que cada tijolo do Parque de Eventos e cada contrato de artista sertanejo assinado nos últimos anos tem a sua digital política. O jogo de cena pode até enganar os mais desatentos, mas se era tão errado assim investir em festas, por que Pivetta esperou oito anos e uma interinidade para descobrir a própria consciência?