A trama que envolve os 11,5 milhões de reais pagos pela J&F e JBS para uma advogada de Goiânia ganhou um capítulo digno de série de suspense financeiro. O dinheiro, que saiu das contas dos irmãos Batista para o modesto escritório de Maísa Marciano — que até então vivia com uma renda de 9 mil reais em uma sala compartilhada —, não ficou parado. No mesmo dia do recebimento, uma fatia de 3,5 milhões de reais seguiu viagem para a conta de Paulo Humberto Barbosa, o advogado e empresário que, por uma “feliz coincidência”, é o novo dono do Tayayá Resort, complexo que pertencia à família do ministro Dias Toffoli.

A transação fecha um círculo de proximidades que faz Brasília parecer uma cidade minúscula. Paulo Humberto não é apenas o comprador do resort dos irmãos de Toffoli; ele é sócio do presidente da Friboi e tem vínculos estreitos com a árvore genealógica dos Batista. Enquanto o Coaf levanta as sobrancelhas para a “incompatibilidade financeira” da advogada de coworking, o mercado observa como o fluxo de capital da J&F consegue transitar entre honorários advocatícios e aquisições imobiliárias de alto luxo que envolvem parentes da cúpula do Judiciário.

Para os observadores de bastidores, o roteiro é impecável: a J&F, que teve multas bilionárias suspensas por decisões do próprio Toffoli, irriga um escritório de pequeno porte que, ato contínuo, repassa os valores para o comprador dos bens da família do magistrado. É o tipo de engenharia financeira que transforma o “mérito acadêmico” em uma nota de rodapé diante do poder das conexões certas. Enquanto a justiça tenta entender a natureza dos serviços prestados, o resort no Paraná segue sob nova direção, provando que, no mundo dos negócios brasilienses, tudo se transforma e nada se perde — principalmente se houver um acordo de leniência no caminho.