Pode parecer que separar o lixo em casa, descartar no lugar certo e apostar na reciclagem seja suficiente para resolver o problema do plástico. Mas a ciência acaba de nos lembrar que não é bem assim.

Segundo um relatório publicado na respeitada revista científica The Lancet, a forma como a reciclagem é feita atualmente tem impacto limitado diante do ritmo acelerado da produção mundial de plásticos, que saltou de 2 milhões para 475 milhões de toneladas entre 1950 e 2022.

O futuro não parece mais leve: a projeção é de que esse número triplique até 2060 (ou até 2050), segundo alguns especialistas. Isso, além de pressionar os limites do clima, pode consumir até um quarto do chamado “orçamento de carbono” restante, ou seja, a quantidade que ainda podemos emitir antes que o planeta aqueça de forma irreversível.

Apesar de todos os esforços, campanhas, leis e inovações, apenas cerca de 9% de todo o plástico no mundo é efetivamente reciclado. Isso ocorre porque muitos tipos de plástico possuem estruturas químicas complexas, o que dificulta sua reutilização.

Diferente do papel, do vidro ou do alumínio, o plástico é um material que não retorna facilmente ao ciclo produtivo. E o que sobra? Acaba em aterros, é incinerado ou vaza para o meio ambiente na forma de microplásticos, hoje encontrados até no sangue humano.

Esse alerta da comunidade científica chega em um momento crucial: 180 países estão reunidos em Genebra para negociar um tratado global sobre o plástico, mas o consenso ainda está longe. A proposta de cortar a produção pela raiz esbarra em fortes interesses econômicos, especialmente de países com grandes indústrias petroquímicas, como Arábia Saudita, Irã, China e Rússia.

O principal entrave é a limitação da produção de plástico virgem, o que afetaria diretamente os lucros de quem fabrica matéria-prima a partir de combustíveis fósseis. A própria indústria de petróleo e gás tem enviado lobistas para acompanhar as negociações, em alguns casos, atuando até como membros oficiais das delegações nacionais.

O país está no topo da lista: o Brasil é o quarto maior produtor de plástico do mundo. Em 2022, foram produzidas 13,7 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de 64 quilos por pessoa no ano.

O problema é que o descarte correto ainda está longe do ideal. Mais de 3 milhões de toneladas de resíduos sólidos acabam em rios e mares todos os anos, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Isso seria o suficiente para cobrir sete mil campos de futebol.

Além disso, seguimos aumentando a produção, muitas vezes importando plástico ou transferindo fábricas para regiões onde os custos são menores, como Ásia e América Latina.

Não é só o meio ambiente que paga essa conta. O relatório da The Lancet também destaca os impactos na saúde: a exposição constante ao plástico e seus aditivos está ligada a doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer.

Uma pesquisa da NYU Langone Health revelou que 10% das mortes por doenças cardíacas entre adultos de meia-idade podem estar associadas a ftalatos – grupo de substâncias químicas usadas principalmente como plastificantes em plásticos, tornando-os mais flexíveis – compostos presentes em diversos plásticos.


Especialistas defendem que a saída não é apenas tratar os sintomas, mas a causa: reduzir a produção de plásticos desde o início. Isso inclui repensar o uso de itens descartáveis, investir em materiais alternativos, aplicar políticas públicas firmes e frear o poder das corporações petroquímicas. Mas, como mostram as negociações travadas, esse caminho ainda exige coragem política e pressão social.