A manhã desta quarta-feira (29) no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, amanheceu marcada por uma cena de horror e desespero que chocou até os mais habituados à violência urbana. Moradores, muitos deles familiares das vítimas, transportaram ao menos 55 corpos – número inicial que pode ser maior – para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, uma das principais vias da região. Os cadáveres, resgatados da mata densa da Serra da Misericórdia, entre os complexos da Penha e do Alemão, foram enfileirados no chão, cercados por uma multidão em prantos que tentava identificar entes queridos.

Essa comoção veio no dia seguinte à Operação Contenção, deflagrada na terça-feira (28) e considerada a mais letal da história do estado, com um saldo oficial inicial de 64 mortes – sendo 60 criminosos e quatro policiais. No entanto, os corpos levados à praça pela comunidade não constam nesse balanço, segundo o secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira. “Estamos apurando a relação com a operação por meio de perícia”, afirmou. Com a inclusão desses achados, o número total de vítimas pode ultrapassar 120, conforme atualizações parciais divulgadas por fontes locais e relatos em redes sociais.

A operação, que visava desarticular uma facção do Comando Vermelho (CV) responsável por ataques com drones e bombas caseiras, mobilizou cerca de 2.500 agentes das Polícias Civil e Militar, com apoio do Ministério Público. Ao todo, 81 pessoas foram presas e 111 fuzis apreendidos, segundo o governo estadual. Mas o custo humano foi devastador: além dos quatro policiais mortos – dois da Civil (Marcus Vinícius Cardoso, o “Máscara”, de 51 anos, e Rodrigo Velloso Cabral, de 34) e dois do BOPE –, nove outros ficaram feridos, incluindo três moradores inocentes baleados em tiroteios cruzados.

Outros seis corpos foram levados por moradores em uma kombi para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, transformado em “unidade de guerra” pelo fluxo de feridos e mortos. A unidade priorizou necropsias, com o Instituto Médico Legal (IML) de São Gonçalo sobrecarregado – atendimentos a famílias foram transferidos para um prédio do Detran vizinho.

Especialistas em segurança pública alertam para um ciclo vicioso: a operação, embora tenha enfraquecido o CV local, pode inflamar retaliações, como as bombas lançadas por drones durante os confrontos, reminiscentes da ocupação do Alemão em 2010. Enquanto isso, a Zona Norte segue sob bloqueios e viaturas em pontos estratégicos, como a Linha Amarela e a Avenida Braz de Pina. Famílias aguardam respostas, e o Rio, mais uma vez, questiona o preço da “paz armada”.