A política em Mato Grosso sempre teve um pé no exótico e outro no oportunismo, criando um cenário onde o “personagem” muitas vezes vale mais do que a proposta. Ao longo das décadas, o estado assistiu ao surgimento de figuras que, sob o manto da irreverência ou de um falso moralismo, serviam como verdadeiros “mísseis teleguiados” contra candidatos com chances reais de vitória. O caso mais emblemático e sombrio é o de José Marcondes, o jornalista conhecido como Muvuca. Antes de protagonizar um final trágico — em que tentou matar a ex-companheira e cometeu suicídio anos depois de suas incursões eleitorais —, Muvuca era a voz estridente que usava o palanque para fustigar adversários, levantando suspeitas de que sua densidade eleitoral nula era compensada por um “aluguel” estratégico de grupos políticos interessados no desgaste alheio.

Outro nome que ilustra essa galeria de curiosidades é Antônio Lúcio de Oliveira Neto, o popular Mandioca. Assim como Muvuca, Mandioca surfava na onda da caricatura, mas as suspeitas da época eram as mesmas: seriam eles candidatos reais ou apenas peças de um tabuleiro montado para tirar a credibilidade de quem estava no topo das pesquisas? Essa estratégia de “lançar laranjas” para atacar sem medo de represálias é uma tática velha, usada por quem vê a eleição escapar por entre os dedos e decide que, se não pode vencer no debate, deve ganhar na lama. São os autointitulados “senhores da razão” e “paladinos da justiça” que, sem histórico ou base, aparecem prometendo mundos e fundos apenas para servir de bucha de canhão para grupos maiores.

O Brasil, é claro, tem um histórico rico de usar o bizarro como protesto. Nas cédulas de papel de outrora, o Rinoceronte Cacareco, em São Paulo, e o Macaco Tião, no Rio de Janeiro, foram campeões de votos, simbolizando o escárnio do eleitor com a classe política. No entanto, a diferença é que os bichos eram símbolos de revolta popular, enquanto os candidatos caricatos de Mato Grosso muitas vezes escondiam uma transação comercial nos bastidores. Para a eleição de 2026, porém, o cenário parece — ao menos por enquanto — livre desses personagens “contratados”. Até o momento, não há indícios de um candidato laranja escalado apenas para o serviço sujo de bombardeio de reputações.

A ausência dessas figuras até agora pode ser um sinal de amadurecimento ou apenas uma calmaria antes da tempestade. Afinal, em um estado onde o agro e a política se fundem em cifras bilionárias, o surgimento de um salvador da pátria sem votos, mas com muito veneno na língua, é sempre uma possibilidade latente. Resta ao eleitor rondonopolitano e mato-grossense ficar de olho: quando um candidato sem história aparece gritando, ele raramente está lutando pela justiça — o mais provável é que ele esteja apenas cumprindo o contrato de quem realmente manda no show.

