O vice-governador Otaviano Pivetta decidiu utilizar suas redes sociais para projetar um perfil de austeridade administrativa ao anunciar mudanças no staff do governo. Em vídeo recente, Pivetta disparou o que classificou como um recado direto: quem pede “30% de volta” em contratos públicos não terá espaço em sua equipe. A fala, que busca sintonizar o político com o anseio popular por ética, acaba por soar como uma peça de sarcasmo involuntário, já que o autor da “alfinetada” ocupa o segundo cargo mais importante de uma administração que, nesta mesma semana, foi denunciada por operar esquemas de escala infinitamente superior no Palácio Paiaguás.

Enquanto o vice-governador se ocupa com a “taxa” de 30% de escalões inferiores, o cenário em Brasília é de exposição de planilhas e fundos de investimento. O ex-governador Pedro Taques, em depoimento à CPI do Crime Organizado, detalhou como a gestão de Mauro Mendes — da qual Pivetta é parte indissociável — teria triangulado cerca de R$ 308 milhões em créditos de ICMS da operadora Oi. Segundo a denúncia, esse montante bilionário não teria sido apenas “pedido de volta”, mas sim direcionado através de uma teia financeira envolvendo o Banco Master e fundos como o Royal Capital, para supostamente irrigar empresas de pessoas do entorno direto do governador.

Ao fixar o teto de sua indignação na casa dos 30%, Pivetta parece sofrer de uma amnésia conveniente sobre os nove dígitos que agora assombram o governo que ele integra. O discurso de “limpeza no staff” ignora o fato de que a denúncia de Taques não fala em pequenas comissões de balcão, mas em uma engenharia financeira sofisticada que teria desviado recursos públicos para aliados políticos. O recado de Pivetta, portanto, serve mais como uma distração retórica do que como uma medida de saneamento, já que a “faxina” prometida pelo vice parece não alcançar os andares superiores do palácio, onde as cifras em jogo fazem o percentual de 30% parecer trocado de padaria.