O espírito de confraternização natalina parece evaporar assim que o motorista coloca o pneu no asfalto das BRs 163 e 364, onde a pressa para chegar ao banquete familiar transforma o trajeto numa verdadeira prova de nervos. O fluxo de veículos pequenos, carregados de presentes e expectativas, mistura-se ao gigante vaivém das carretas, criando um cenário onde qualquer vacilo pode custar muito mais caro que o presente esquecido no armário. A Polícia Rodoviária Federal já colocou o bloco na rua, ou melhor, as viaturas no acostamento, tentando conter o ímpeto dos “pilotos de fuga” que acham que a rodovia é pista de corrida e que as leis de trânsito são apenas sugestões de etiqueta.

Para tentar evitar que a celebração termine em boletim de ocorrência ou coisa pior, as autoridades de segurança reforçaram o alerta para as precauções básicas que muitos insistem em ignorar na hora do desespero por uma ultrapassagem. O check-up mecânico, que deveria ser regra, vira exceção para quem confia na sorte, resultando em carros parados no sol quente e transformando a viagem num piquenique forçado na beira do mato. A orientação da PRF é clara: luz acesa, cinto afivelado e o pé bem longe do acelerador, especialmente nos trechos de pista simples onde a imprudência costuma convidar a tragédia para o banco do passageiro. Beber e dirigir, então, continua sendo a receita perfeita para trocar o peru de Natal pelo rancho do hospital ou, no pior dos casos, pelo silêncio do necrotério.

Como nem todo mundo é bem-vindo no baile do asfalto durante o feriado, o governo federal impôs um “chá de cadeira” forçado para os donos de veículos pesados. As restrições de tráfego para combinações de veículos de carga, os famosos bitrens e rodotrens, são o balde de água fria necessário para desafogar as vias de pista simples nos horários de maior movimento. A ideia é tirar os gigantes da pista para que o fluxo de turistas não trave completamente, embora o ronco dos motores e a fumaça preta continuem sendo o pano de fundo constante de quem encara o êxodo natalino. Quem for pego descumprindo a proibição de circulação vai descobrir que a multa é bem mais salgada que o bacalhau da ceia e que o pátio da polícia não é o melhor lugar para passar a noite de Natal.

No final das contas, o que se vê nas estradas é o retrato da ansiedade nacional, onde o motorista médio luta contra o tempo, contra os buracos e contra a própria falta de juízo. A fiscalização da PRF tenta fazer a sua parte com bafômetros e radares a postos, mas o bom senso ainda é o acessório mais raro de se encontrar nos veículos que cruzam o estado. Sobreviver à maratona de asfalto para conseguir ouvir as piadas do “tio do pavê” exige paciência de monge e atenção de sentinela, afinal de contas, chegar vivo é a única forma de garantir que o próximo Natal não seja lembrado apenas por uma mancha de óleo e um pedaço de para-choque abandonado na rodovia.