O Palácio do Planalto foi obrigado a recalcular os seus movimentos no tabuleiro do Congresso Nacional e já estuda uma retirada estratégica de campo. Diante de um travamento completo nos trabalhos do plenário, a equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a avaliar formalmente a remoção do regime de urgência constitucional que pesa sobre o projeto de lei que trata do fim da escala 6×1. O recuo técnico desenha-se poucas horas após o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), subir o tom nos bastidores e cobrar publicamente uma postura realista do Executivo para livrar a Casa de um nó burocrático que paralisa votações vitais para o caixa federal.

O pomo da discórdia reside no uso político da urgência constitucional por parte do governo, uma cartada jurídica que tem o poder de sobrestar — ou seja, trancar — a pauta de votações da Câmara caso o texto não seja apreciado em um prazo de 45 dias. Na visão de Hugo Motta e das principais lideranças do centrão, o Planalto tentou enfiar a matéria goela abaixo do parlamento para ditar o ritmo dos debates e faturar dividendos políticos em cima de uma pauta de enorme apelo popular. Como a proposta do Executivo acabou travando os demais itens de interesse econômico da Esplanada, o comando da Câmara reagiu impondo uma barreira de gelo às negociações, deixando o governo refém do próprio mecanismo que ativou.

Para tentar aliviar a fervura e desatar o nó com o Legislativo, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, abriu canais de diálogo direto com as lideranças partidárias. O argumento levado por Motta ao governo é pragmático: como o tema da jornada de trabalho já está em estágio avançado de discussão e já mobilizou pareceres densos, manter o PL trancando a pauta serve apenas para criar um desgaste mútuo e desnecessário. Ao admitir o recuo na urgência, o Planalto tenta vender o movimento como um gesto de boa vontade e um aceno ao diálogo, embora nos bastidores todos saibam que se trata de uma capitulação diante do poder de agenda de Hugo Motta.

A eventual retirada da urgência funciona como um balão de oxigênio para a pauta econômica do governo, que precisa votar medidas de arrecadação antes do recesso parlamentar de meio de ano. Contudo, a manobra expõe a fragilidade da articulação política governista, que segue batendo cabeça para construir maiorias sólidas sem o aval da cúpula do centrão. Enquanto o projeto da escala 6×1 é empurrado de volta para o rito normal das comissões de mérito — onde corre o risco de ser desidratado —, Hugo Motta consolida a sua autoridade no comando da Câmara, deixando claro ao Planalto que nenhuma pauta anda na marra se o Legislativo não der o sinal verde.