O Rio de Janeiro acordou sob o som de rajadas de fuzil e explosões nesta terça-feira (28/10), com a deflagração da Operação Contenção, uma ofensiva integrada das forças de segurança estaduais contra o Comando Vermelho (CV). Mobilizando cerca de 2.500 agentes, a ação visa cumprir mais de 100 mandados de prisão e busca e apreensão em 26 comunidades dos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital. Até o início da tarde, o saldo parcial era de pelo menos 22 mortos – incluindo dois policiais civis e 20 suspeitos –, 81 prisões e nove feridos, em confrontos que lembram cenários de guerra urbana.

A operação, que representa uma nova etapa de uma iniciativa permanente do governo estadual para conter a expansão territorial da facção, começou nas primeiras horas da madrugada. Agentes da Polícia Civil, Polícia Militar, Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), Comando de Operações Especiais (COE) e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) entraram nas comunidades com apoio logístico pesado: dois helicópteros, 32 blindados terrestres, 12 veículos de demolição e drones para monitoramento.

A investigação, que durou mais de um ano e foi conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), mira lideranças criminosas do Rio e de outros estados, como o Pará, onde 30 suspeitos teriam se refugiado recentemente.

A reação dos traficantes foi imediata e violenta. Barricadas foram incendiadas em vias de acesso, colunas de fumaça subiram por toda a região, e tiroteios intensos ecoaram por quase duas horas, com relatos de até 200 disparos em um minuto, conforme vídeos divulgados por moradores e pela própria Secretaria de Segurança Pública.

Em uma tática inédita de resistência, criminosos usaram drones para lançar bombas e granadas contra as equipes da Core no Complexo da Penha, forçando os policiais a se abrigarem e atrasando o avanço das forças de segurança. “É uma guerra que está passando dos limites. O Estado não pode se defender sozinho”, declarou o governador Cláudio Castro (PL) em coletiva de imprensa, ao lado do secretário de Segurança Pública, Victor Santos, que destacou a “desordem urbana” em 9 milhões de metros quadrados de território dominado pelo crime.

Entre as apreensões iniciais, destacam-se 31 fuzis, pistolas, drogas e munições, além da prisão de figuras como Nicolas, operador financeiro ligado a Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, um dos principais líderes do CV.

Um detalhe curioso emergiu de uma das buscas: em uma mansão de um traficante no Alemão, agentes encontraram um quadro do rapper Oruam, ícone do funk carioca, sugerindo os laços culturais entre o crime organizado e a cultura local.

O impacto na população é devastador. A Secretaria Municipal de Educação registrou o fechamento de 28 escolas no Alemão e 17 na Penha, além de uma unidade estadual, deixando milhares de alunos sem aulas.

A Rio Ônibus desviou 12 linhas de ônibus para evitar rotas de risco, e bairros vizinhos como Olaria, Bonsucesso e Ramos relataram pânico generalizado, com moradores se trancando em casa sob o som de helicópteros e sirenes. diariocarioca.com “É como se a cidade estivesse em chamas. Meus filhos não dormiram com o barulho”, desabafou uma moradora do Ramos em postagens nas redes sociais, ecoando o sentimento de medo coletivo.

Essa é a terceira operação mais letal da história recente do Rio, superada apenas pelas ações no Jacarezinho (2021, 28 mortes) e Vila Cruzeiro (2022, 24 mortes). iclnoticias.com.br Para Santos, o secretário de Segurança, a escala do problema exige parcerias federais: “É impossível enfrentar 9 milhões de metros quadrados de becos intransitáveis só com o efetivo estadual”. otempo.com.br O governo promete continuidade à Contenção, mas críticos, incluindo organizações de direitos humanos, questionam o custo em vidas e a eficácia a longo prazo, alertando para o ciclo de violência que perpetua o domínio das facções.

Enquanto os blindados avançam e os tiroteios persistem, o Rio mais uma vez expõe as feridas profundas de uma guerra contra o crime organizado. A operação segue em andamento, e o Estado carioca espera que, desta vez, a contenção se transforme em conquista duradoura de paz.