Na cheia, o Pantanal vira um mar de água doce e, na seca, o chão racha e se torna vulnerável ao fogo. Essa dinâmica extrema escancara a fragilidade do bioma e a urgência por alternativas econômicas que conciliem desenvolvimento e preservação. Em 2025, uma dessas alternativas ganhou força: o crédito verde, com prioridade inédita para municípios pantaneiros em linhas de financiamento que contemplam reflorestamento, turismo de natureza e energia renovável.
O Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) nasceu para estimular o desenvolvimento da região. Desde 2019, ele inclui o FCO Verde, voltado para práticas que conciliam produção e conservação ambiental.
De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso (Sedec-MT), a linha cobre desde a recuperação de áreas degradadas até a implantação de sistemas agroflorestais, aquisição de bioinsumos, integração lavoura-pecuária-floresta e investimentos em energia renovável.
As condições são atrativas: financiamentos de até 22 anos, com carência variável, juros pré-fixados em 8,60% ao ano ou pós-fixados em 1,71% + FAM (Fator de Atualização Monetária), com bônus de adimplência de 15%.
Segundo a Sedec-MT, a evolução é expressiva: em apenas sete meses de 2025, o crédito liberado já quase iguala o total de 2024 e é quase três vezes superior ao volume de 2019. Em seis anos, os financiamentos quadruplicaram, mostrando que o crédito sustentável deixou de ser exceção para se tornar peça central da política de fomento em Mato Grosso.
Desenvolve MT: a porta de entrada do crédito sustentável
A Agência de Fomento do Estado de Mato Grosso (Desenvolve MT) atua como parceira no repasse do crédito e na orientação técnica dos empreendedores. Entre 2020 e 2025, a agência financiou cerca de R$ 32 milhões em empreendimentos turísticos, incluindo pousadas e hotéis em Cáceres e Poconé, além de R$ 6,6 milhões em projetos de energia fotovoltaica.
As condições são consideradas vantajosas: até R$ 1,5 milhão em financiamento, taxas de 1,12% ao mês para pagamento em dia, prazos de até 120 meses e carência de até 12 meses. O suporte técnico é garantido em parceria com Sebrae, Senai e Empaer, para orientar o uso correto dos recursos.
Alessandra Castillo, proprietária do Hotel Porto Bello, em Cáceres (MT), acessou em 2022 uma linha de financiamento da Desenvolve MT para a instalação de placas solares. No segmento de hotelaria, a energia elétrica está entre os maiores custos operacionais, especialmente durante a alta temporada, quando o consumo cresce por conta do ar-condicionado, da lavanderia e da cozinha.
Segundo a empresária, o investimento foi estratégico. “Nos últimos 20 anos, o hotel apresentou grande rotatividade de hóspedes a trabalho. Como Cáceres, por suas belezas naturais, é uma região turística, o foco são barcos-hotéis e pousadas, o que tira um pouco do nosso fluxo. Mas temos os que vêm a negócios e fazem conexão para outros destinos”, explica.
Com a energia solar, Alessandra conseguiu reduzir despesas fixas e direcionar recursos para a modernização da estrutura. O projeto também elevou a imagem do empreendimento diante de turistas mais exigentes e atentos às práticas de sustentabilidade. “Hoje, ter energia limpa não é apenas uma economia, mas também um diferencial de mercado. Muitos hóspedes valorizam a preocupação ambiental”, completa.
FCO Pantanal: resposta às queimadas
Diante das estiagens e incêndios históricos, o FCO Pantanal foi lançado em setembro de 2024, com regras diferenciadas para a planície pantaneira. Ele permite financiar até 100% do projeto, ampliar carência em um ano e alongar prazos em dois anos, além de reforçar o capital de giro em até 40%.
O foco é apoiar desde a recuperação de áreas produtivas e reposição de rebanhos até a aquisição de equipamentos para combate a incêndios, além da retomada de atividades ligadas ao turismo, pesca e comércio afetados pelas queimadas.
Valorização da pecuária pantaneira
A Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), que representa mais de 15 mil pecuaristas no estado, defende que o crédito verde é essencial para fortalecer a imagem da pecuária pantaneira. “Há inúmeras demandas relacionadas à recuperação de pastagens e áreas degradadas, bem como à prevenção e ao combate aos incêndios florestais”, pontua a entidade.
Para a Acrimat, porém, os entraves burocráticos ainda são um gargalo. “A validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), a titulação de áreas e as restrições em imóveis embargados dificultam o acesso ao crédito. Hoje, os pecuaristas enfrentam uma demora significativa na análise dos processos, o que atrasa a implementação de medidas urgentes”, afirmou a associação.
Ao mesmo tempo, a entidade vê no crédito verde um aliado para valorizar a pecuária de Mato Grosso. “O cumprimento das regras e exigências estabelecidas pelos bancos comprova a regularidade ambiental do produtor. Isso ajuda a melhorar a imagem da carne pantaneira e abre portas em mercados mais exigentes”, completa a Acrimat.
Alerta para a inclusão social
O WWF-Brasil, braço nacional da maior rede independente de conservação ambiental do planeta, alerta que o crédito verde precisa chegar também a ribeirinhos, pequenos produtores e comunidades tradicionais.
“O crédito verde é um avanço importante, mas ainda é acessado majoritariamente por médios e grandes produtores. Para comunidades tradicionais, o processo é praticamente inacessível diante das exigências técnicas e documentais”, afirmou o especialista em Conservação do WWF-Brasil, Pablo Majer.
Majer defende que os programas sejam acompanhados de políticas complementares. “É preciso criar mecanismos que permitam o acesso dos pequenos, ao mesmo tempo em que se reduz a inadimplência. Só assim conseguimos usar melhor o crédito e gerar benefícios reais para quem vive no bioma”, disse.
O especialista também lembra da interdependência entre biomas. “O ciclo de cheias e secas depende do Cerrado, que abastece o Pantanal com água. Então, o crédito sustentável não pode se restringir à planície, precisa chegar às cabeceiras.”
Para o WWF-Brasil, o Pantanal tem potencial de se tornar um laboratório nacional de soluções financeiras sustentáveis, mas Majer alerta: “Se o produtor acessa o crédito e mantém práticas antigas, como desmatamento e pecuária extensiva de baixa produtividade, perde-se o caráter verde. É fundamental atrelar monitoramento, assistência técnica e metodologias que assegurem responsabilidade ambiental”.
Vitrine de práticas sustentáveis
O Polo Socioambiental Sesc Pantanal mostra na prática como a sustentabilidade pode ser incorporada à rotina de instituições e comunidades. Nenhuma unidade usa copos descartáveis: todos os colaboradores recebem canecas reutilizáveis. O lixo reciclável, cerca de cinco toneladas anuais, é destinado à cooperativa Cooponé, em Poconé, gerando renda para dezenas de famílias.
A instituição também mantém ecopontos em bairros e comunidades rurais, coleta óleo de cozinha usado em troca de detergente e inclui crianças e jovens em atividades educativas sobre reciclagem.
No campo da energia limpa, o Hotel Sesc Porto Cercado conta com uma usina solar fotovoltaica de 1.320 placas, que gera 39.600 kWh por mês e supre 40% do consumo, evitando 3,28 toneladas de CO₂ mensais. Desde 2024, a frota começou a ser substituída por veículos elétricos, alinhando-se a uma mobilidade mais limpa.
Se os mecanismos se consolidarem, Mato Grosso pode transformar o Pantanal em um modelo vivo de conciliação entre crédito, economia e preservação. O bioma, tantas vezes marcado por estiagens e incêndios, tem agora a chance de mostrar que o dinheiro público e privado pode florescer junto com a natureza.
