O cenário político de Mato Grosso atravessa uma transição que, em vez de diplomacia e aperto de mãos, está sendo marcada por uma pirotecnia verbal sem precedentes. Às vésperas de assumir a cadeira de governador com a renúncia de Mauro Mendes — que deixa o posto para buscar o Senado —, Otaviano Pivetta parece ter trocado a discrição do cargo de vice pelo figurino de justiceiro solitário. Pressionado por números de pesquisas eleitorais que não lhe favorecem, o futuro inquilino do Paiaguás decidiu elevar o tom das acusações de corrupção, disparando contra deputados, senadores e até órgãos federais, numa tentativa de se descolar da velha política enquanto ainda calça os sapatos da gestão atual.

O “balcão de negócios” denunciado por Pivetta agora possui cifras específicas e alvos variados. Ao ventilar a existência de políticos que exigem 30% de comissão em contratos públicos e acusar políticos ligados ao DNIT de terem “roubado o povo” para impedir as obras de um viaduto, o vice-governador parece apostar no tudo ou nada. A estratégia de “limpeza geral”, contudo, esbarra na omissão dos nomes. Ao lançar suspeitas sobre o uso das emendas parlamentares sem apontar os deputados estaduais do suposto desvio, Pivetta logrou o feito de irritar profundamente a Assembleia Legislativa. Os deputados estaduais, que agora aguardam a posse do novo chefe do Executivo, não escondem o desconforto com o que classificam como uma retórica perigosa e infundada, questionando como será a governabilidade de um gestor que entra no palácio acusando seus futuros interlocutores de ladroagem.

Essa postura de ataque sistemático revela um paradoxo que o discurso de Pivetta tenta camuflar. Ao mesmo tempo em que acusa o sistema de estar contaminado por esquemas de “volta” e corrupção, ele se prepara para governar com o apoio — ou a falta dele — desses mesmos parlamentares e servidores que agora são alvos de suas alfinetadas. A reação nos bastidores é de uma vigilância ácida; senadores e deputados já alertaram que acusar sem provas é um crime de responsabilidade e que a imunidade de candidato não serve de escudo para calúnias. Para os observadores da cena política matogrossense, a dúvida que fica é se Pivetta conseguirá transformar essa fúria em votos ou se está apenas cavando o isolamento político antes mesmo da primeira canetada como governador oficial de Mato Grosso.