O capítulo final de um dos crimes mais emblemáticos da história recente do Brasil foi escrito nos corredores do Supremo Tribunal Federal (STF). Com o martelo batido, o destino de Domingos e Chiquinho Brazão, além do ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa, agora está selado pela justiça. O desfecho encerra um ciclo de impunidade que durou quase oito anos, revelando que a execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes não foi apenas um ato de violência isolado, mas o resultado de uma engrenagem corrupta instalada no coração do Estado.
As investigações, validadas pela Suprema Corte sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, confirmaram que a motivação do crime foi puramente comercial e fundiária. Marielle, vista como um obstáculo aos interesses econômicos dos irmãos Brazão em áreas dominadas por milícias, pagou com a vida por se opor à regularização de loteamentos clandestinos na Zona Oeste do Rio. O “planejamento perfeito” desenhado por Rivaldo Barbosa, que deveria garantir que o crime jamais fosse solucionado, ruiu diante da delação premiada de Ronnie Lessa e das provas técnicas colhidas pela Polícia Federal.
O caso também serviu como combustível para uma polarização política sem precedentes. Durante anos, narrativas de esquerda e direita utilizaram o assassinato como arma retórica, enquanto as famílias das vítimas clamavam por respostas reais. De um lado, o lulismo exigia justiça contra o que chamava de “Estado miliciano”; do outro, o bolsonarismo tentava se desvincular das figuras que orbitavam o submundo do crime carioca. No fim, a sentença do STF não escolheu lados ideológicos, mas expôs a realidade nua e crua de uma cidade onde o poder político e o crime organizado muitas vezes dividem a mesma mesa.
Com a condenação dos mandantes somada às penas recordes dos executores Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, o país assiste ao desmonte de uma das estruturas mais intocáveis do Rio de Janeiro. A decisão do STF vai além da punição aos envolvidos: ela envia um recado claro de que nem mesmo as cadeiras de conselheiro do Tribunal de Contas ou de deputado federal servem de blindagem contra o rigor da lei quando o Estado decide, enfim, investigar a si mesmo.
