O que era para ser uma exibição de força do Palácio Paiaguás virou o estopim de um desastre tático sem precedentes na política de Mato Grosso. A famigerada convenção do União Brasil — selada sob o ruidoso placar de 30 a 19 e apelidada nos bastidores de “Efeito Desunião Brasil” — entrou para a história como o ponto de virada das eleições de 2026. Ao usar o rolo compressor para atropelar o senador Jayme Campos e impor o apoio à vacilante pré-candidatura do governador Otaviano Pivetta (Republicanos), a dupla formada por Pivetta e pelo ex-governador Mauro Mendes acabou por cimentar, sem querer, o palanque de seu maior adversário: o senador Wellington Fagundes (PL).

A imposição autoritária na convenção jogou diretamente nos braços do PL uma constelação de forças políticas que isolou o governo. O movimento reforçou na oposição a deputada estadual Janaina Riva (MDB), feriu de morte a lealdade do clã dos Campos e acelerou a adesão do presidente da Assembleia Legislativa e do Podemos, Max Russi. A jogada de mestre de Max — selada durante uma conversa estratégica de alinhamento na rota entre Cáceres e Cuiabá — colocou o Podemos como a “noiva ideal” da majoritária, garantindo à sigla a prioridade total nas negociações para a indicação da vice-governadoria de Wellington. Se vitorioso, o presidente da ALMT se projeta como uma das figuras centrais de poder na nova configuração do estado.

O racha provocado pelo Paiaguás teve efeito dominó até mesmo nas amarrações nacionais da direita. Em Brasília, durante a convenção do PL no Parque da Cidade, Wellington Fagundes — amparado pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro — desenharam a chapa majoritária com José Medeiros (PL) e Janaina Riva (MDB) disputando as duas vagas ao Senado. A costura aparou as arestas internas que rondavam o PL e encerrou qualquer especulação de uma “composição fria” entre Medeiros e Mauro Mendes. Ao aceitar a emedebista no palanque de forma definitiva, Medeiros pacificou o partido, ganhou tração nas bases conservadoras e fortaleceu sua caminhada rumo à Casa Alta.

O desenho que se consolida nas urnas acende um alerta vermelho de contornos históricos para os ocupantes do Palácio Paiaguás. Analistas de bastidor já comparam o isolamento de Mauro Mendes e Pivetta ao fatídico colapso político sofrido por Dante de Oliveira no início dos anos 2000, quando a soberba da máquina e a desarticulação das bases resultaram em uma derrota avassaladora nas urnas para o Senado. O grupo que se julgava inabalável agora assiste à formação de uma frente ampla que une a força do eleitorado de Rondonópolis, a capilaridade de Várzea Grande a influência importante da baixada cuiabana, a força da Assembleia Legislativa e o apelo da direita nacional.

Com a chapa “WF” homologada e os nomes de Medeiros e Janaina consolidados para o Senado, a superaliança passa a focar na última etapa da empreitada: transformar a avassaladora liderança apontada nas pesquisas de opinião em uma votação maciça nas urnas. O plano mira não apenas liquidar a fatura na corrida ao Governo e ao Senado, mas também construir uma maioria esmagadora de eleitos para a Câmara Federal e para a Assembleia Legislativa, decretando a derrocada definitiva do ciclo político comandado por Mauro e Pivetta em Mato Grosso.