A corrida pelo Palácio Paiaguás escancarou um festival de infidelidade partidária e traições políticas em Mato Grosso. Apoiados pela legenda para se elegerem e cobrados a manter a disciplina partidária, prefeitos têm ignorado resoluções de suas siglas e abandonado seus próprios candidatos para se renderem aos encantos e ao poder financeiro da máquina estadual comandada pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos). O movimento, longe de refletir convicções programáticas, levanta forte desconfiança sobre a real intenção dos gestores, apontados nos bastidores como reféns do pragmatismo financeiro e do medo de verem torneiras de convênios fechadas pelo Estado.
O golpe mais ruidoso e emblemático contra o Partido Liberal partiu do prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL). Eleito sob a bandeira conservadora e com o respaldo direto da cúpula nacional e estadual do PL, Abílio simplesmente virou as costas para a candidatura do senador Wellington Fagundes (PL) e subiu no palanque do adversário governista. Em um discurso que causou revolta na militância liberal e constrangimento pela subserviência, a gestora rasgou a fidelidade partidária.
A atitude foi prontamente desmascarada dentro do próprio Partido Liberal como uma manobra ensaiada para justificar o salto de barco em direção aos cofres do Executivo estadual. O deputado estadual Faissal Calil (PL) veio a público desqualificar os pretextos usados pelos gestores dissidentes, expondo que os acordos de bastidores já vinham sendo costurados há muito tempo com o Palácio Paiaguás:
“Os prefeitos já haviam fechado com Pivetta antes mesmo das convenções partidárias e estão usando a aliança com o MDB apenas como álibi para justificar a debandada”.
A postura de conveniência dos prefeitos do interior não poupou outros blocos de oposição, atingindo em cheio tambem a candidatura da médica Natasha Slhessarenko (PSD). Gestores eleitos pelo PSB — a exemplo de Reginaldo Martins Del Colle, o Narizinho (Nova Nazaré), Júnior Contador (Novo Santo Antônio) e José Pereira Maranhão, o Zé Maranhão (Alto Boa Vista) — também se ajoelharam diante da máquina governista de Pivetta. A falta de firmeza e o oportunismo dos prefeitos foram ironizados pelo deputado estadual Lúdio Cabral (PT), que escancarou a fragilidade dessas alianças de fachada:
“Não se perde o apoio que você nunca teve”.
Lúdio ainda pontuou sobre o histórico de conveniência desses mandatários: “As pessoas têm liberdade para escolher. E a maioria dos vereadores, dos prefeitos do PSB eram, na verdade, ligados ao Max, que foi para o Podemos. Então não há, na minha opinião, nenhum problema em relação a isso”.
A enxurrada de deserções e a facilidade com que prefeitos abandonam seus próprios partidos para jurar lealdade ao governador de plantão mostram a face mais crua do fisiologismo na política mato-grossense. Ao trocarem compromissos eleitorais e a lealdade partidária por promessas de emendas e asfalto, os gestores colocam sob suspeita suas reais motivações, deixando evidente que, para quem depende da máquina do Estado, a fidelidade dura apenas até a próxima liberação de verbas.
