O tabuleiro político para a disputa das duas vagas ao Senado Federal por Mato Grosso sofreu um abalo sísmico que mudou por completo o humor dos coordenadores de campanha em Cuiabá e Rondonópolis. Uma candidatura considerada até então como mera “zebra” ou azarão pelas principais bancadas partidárias ganhou uma densidade eleitoral impressionante nas últimas semanas, colocando-se em rota de colisão direta com os bilionários grupos tradicionais. O avanço silencioso e capilarizado desse novo personagem no interior do estado bota em xeque os arranjos de gabinete e ameaça impor um atropelo histórico sobre os gigantes que achavam que a eleição estava ganha.

A ascensão da chamada zebra eleitoral funciona como um reflexo direto do sentimento de exaustão do eleitorado mato-grossense com os constantes escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro e compadrio que asfixiam a cúpula política do estado. Enquanto os principais concorrentes majoritários — atolados em investigações da Polícia Federal sobre o uso de jatinhos particulares e o recebimento de propinas milionárias em espécie — gastam energia preciosa tentando costurar blindagens jurídicas e evitar o banco dos réus, o candidato independente cresce no corpo a corpo com as bases, apresentando uma alternativa de ruptura viável.

Nos bastidores das assembleias, a leitura técnica é de que o comitê dos barões políticos tradicionais entrou em modo de pane geral ao receber as últimas pesquisas de consumo interno. A certeza de que o poder econômico e o duto de emendas parlamentares seriam suficientes para garantir a reeleição ou o passaporte para o Congresso Nacional derreteu diante da realidade das ruas. A zebra da rodada conseguiu furar a bolha da maquiagem das propagandas oficiais, unificando o apoio de lideranças comunitárias e do setor produtivo do interior que rejeitam o loteamento da máquina pública para corporações parceiras.

Com o afunilamento dos prazos e a proximidade das convenções partidárias, a ordem nos comitês governistas é abrir fogo e tentar desidratar o avanço do azarão a qualquer custo, recorrendo a ataques e cortinas de fumaça nas plataformas digitais. Contudo, o movimento de resistência parece ter chegado tarde demais para estancar a sangria de votos. Ao subestimarem a força de uma candidatura que nasceu fora do radar do Palácio Paiaguás e das velhas dinastias, os gigantes assistem, de braços cruzados e com as defesas em frangalhos, à desintegração de suas pretensões de poder sob o peso inevitável do desejo de renovação popular.