A temperatura política em Brasília subiu alguns graus e, desta vez, o fogo vem de dentro do Palácio do Planalto contra os vizinhos de vidro. Segundo o colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, o presidente Lula está sendo cercado por um coro de conselheiros que defende uma mudança drástica de figurino: sair o figurante conciliador e entrar o protagonista que não tem medo de peitar o Supremo Tribunal Federal (STF). A ideia é que o governo pare de tratar a Corte como um aliado inabalável e passe a apontar o dedo para o que muitos ali consideram interferências abusivas, sinalizando que a harmonia forjada no rastro do 8 de janeiro já deu o que tinha que dar e agora o que vale é a sobrevivência política de quem detém a caneta.

O diagnóstico desses articuladores é que a “paz perpétua” com o STF está custando caro demais à imagem de Lula e ao andamento das pautas do governo, transformando o Executivo em um espectador das decisões de Alexandre de Moraes e seus pares. Subir o tom não seria apenas um desabafo, mas uma manobra calculada para pressionar os ministros e mostrar que o Planalto ainda tem voz, tentando recuperar um protagonismo que parece ter se dissolvido entre liminares e pedidos de vista. No asfalto da capital, a sugestão é lida como o início de uma “DR” pública onde os carinhos de ontem dão lugar a uma retórica de confronto, na esperança de que o medo do desgaste faça a balança do poder pender novamente para o lado da Praça onde mora o presidente.

No entanto, essa estratégia de “chutar a canela” da toga é um jogo de alto risco que pode transformar o apoio jurídico em uma oposição implacável. Enquanto Lula avalia se deve ou não seguir o conselho de seus “falcões” e partir para o ataque verbal, o STF observa em silêncio, ciente de que, no teatro de vaidades de Brasília, um presidente que rosna mas não morde costuma ser o primeiro a perder a autoridade. O dilema está posto: ou o governo continua mantendo a aparência de uma união feliz enquanto perde espaço, ou arrisca o divórcio barulhento para tentar salvar o que resta da sua autonomia administrativa, provando que na política brasileira a gratidão tem prazo de validade e o amor acaba assim que a primeira decisão judicial desfavorável é publicada.