As imagens que circulam nos bastidores da segurança pública de Mato Grosso não deixam dúvidas sobre o amadorismo e a crueldade que regem as fileiras do crime organizado no estado. Um vídeo chocante, que agora serve de prova técnica para as autoridades, registrou o exato momento de um sequestro planejado por uma facção criminosa que pretendia realizar um “julgamento paralelo”. O que deveria ser apenas mais uma demonstração de poder contra vítimas indefesas, contudo, desandou para um cenário de sangue e sirenes quando a Polícia Militar interceptou o cativeiro. No desfecho da operação, o que restou foi um faccionado morto em confronto — um “juiz do crime” que teve sua sentença antecipada pela pólvora oficial —, enquanto os demais comparsas, antes valentes diante de reféns amarrados, terminaram a noite deitando no asfalto sob a mira dos fuzis da Força Tática.

Dentro da residência transformada em masmorra, o cenário encontrado pelos policiais era o retrato fiel do “estilo de justiça” pregado pelas facções: reféns com sinais claros de tortura, amordaçados e submetidos a espancamentos que visavam apenas a humilhação e a punição sumária. A chegada das guarnições interrompeu a sessão de barbárie no momento em que as vítimas já eram preparadas para o “voto final”. Houve resistência, e na troca de tiros, um dos criminosos descobriu que a autoridade do Estado ainda fala mais alto que o estatuto do crime, tombando no local enquanto seus parceiros de “conselho” preferiram a rendição rápida à heroica morte pela causa. As vítimas, resgatadas com vida mas com as marcas da covardia estampadas no corpo, foram encaminhadas para atendimento médico enquanto o “vídeo da glória” da facção agora é a peça central do inquérito policial.

A prisão do restante do bando e a apreensão das armas utilizadas no sequestro marcam mais um capítulo da guerra silenciosa, mas letal, que ocorre nos bairros periféricos do estado. Para os integrantes que sobreviveram para contar a história diante do delegado, o “tribunal” agora terá o rigor da lei, sem direito a chicotes ou transmissões ao vivo para intimidar a vizinhança. Com o cativeiro desmantelado e o luto imposto à célula criminosa, Rondonópolis e região recebem o recado factual de que o “salve” tem volta, e muitas vezes ela vem acompanhada de um IML e de algemas bem apertadas. Agora, resta ao sistema prisional abrigar os novos hóspedes, enquanto a polícia segue no encalço de outros “magistrados” que ainda acreditam que o código penal é apenas uma sugestão.