O governo federal caminha hoje em uma linha tênue que desafia as leis básicas da aritmética econômica, tentando equilibrar as contas públicas através de um aumento agressivo na arrecadação enquanto mantém o pé no acelerador dos gastos. A política fiscal da atual gestão tem se caracterizado por uma aposta arriscada: a de que o crescimento da receita será suficiente para cobrir um orçamento cada vez mais engessado por despesas obrigatórias. Entretanto, o que se observa é um cenário de “equilíbrio de corda bamba”, onde o mercado financeiro e investidores olham com desconfiança para a sustentabilidade de um modelo que parece ignorar a necessidade de reformas estruturais e cortes profundos na máquina pública.
O grande ponto de fricção reside na estratégia de focar quase exclusivamente no “lado da receita”. O governo tem buscado todas as brechas possíveis para aumentar a arrecadação — desde a taxação de fundos exclusivos até a revisão de benefícios fiscais — mas os resultados, embora numericamente expressivos em alguns meses, são rapidamente devorados por um aumento equivalente ou superior nas despesas. Essa dinâmica cria um ciclo vicioso onde o estado precisa arrecadar cada vez mais apenas para manter o déficit em patamares aceitáveis, sem nunca atingir o superávit necessário para uma trajetória descendente da dívida pública. A percepção de que não há um “plano B” caso a receita não performe conforme o esperado eleva os prêmios de risco e pressiona a curva de juros.
A sustentabilidade fiscal de longo prazo está diretamente ligada à trajetória da relação dívida/PIB, que continua em uma rota de ascensão preocupante. Ao manter o novo arcabouço fiscal sob constante estresse, com mudanças frequentes de metas ou interpretações flexíveis das regras, o governo acaba minando a própria credibilidade que tenta construir. O discurso político de que “gasto é investimento” esbarra na realidade matemática de que, sem um teto rígido e respeitado, a inflação e os juros altos tornam-se os mecanismos naturais de ajuste do mercado, penalizando justamente a parcela da população que o governo diz proteger. A insistência em manter subsídios e expansões de crédito via bancos públicos apenas adiciona mais lenha a uma fogueira inflacionária que o Banco Central tenta apagar com uma taxa Selic elevada.
No fim das contas, a política fiscal atual se assemelha a um carro que tenta subir uma ladeira íngreme puxando um freio de mão invisível. Sem uma sinalização clara de que o governo está disposto a enfrentar a rigidez do orçamento e a ineficiência de certos gastos públicos, o Brasil corre o risco de permanecer estagnado em um cenário de crescimento baixo e insegurança institucional. O desafio para os próximos anos não será apenas arrecadar mais, mas sim gastar melhor e de forma mais responsável, garantindo que a prosperidade prometida não seja enterrada por uma montanha de dívidas que as futuras gerações terão que pagar. A conta, como se sabe, sempre chega, e no atual ritmo, ela pode vir com juros e correção que o país não terá como suportar.
