Com o novo surto de intoxicação por metanol no Brasil, que já soma mais de 200 notificações, o cenário faz lembrar um episódio dramático e inusitado ocorrido na década de 1990: a utilização de cachaça como antídoto para salvar vítimas de bebida adulterada.
O caso mais notório ocorreu na Bahia, onde o consumo de álcool com metanol em uma festa deixou dezenas de pessoas doentes, com 18 mortes e sintomas graves como cegueira. Na época, o antídoto oficial, o fomepisol, não estava disponível no Brasil.
Em meio à crise, profissionais de saúde na rede pública recorreram ao etanol (álcool etílico), presente nas bebidas alcoólicas comuns, como a cachaça.
O Princípio Científico
A decisão dos médicos era baseada em um princípio científico sólido: o etanol compete com o metanol no fígado. Essa competição bloqueia a enzima que transforma o metanol na substância mais tóxica, o ácido fórmico, responsável pelos danos neurológicos, cegueira e morte. Ao impedir essa transformação, o etanol dá tempo para o corpo eliminar o metanol antes que ele se torne um veneno fatal.
Embora improvisado e arriscado, o tratamento salvou vidas. Atualmente, o princípio continua válido. O etanol farmacêutico (ou, na sua ausência, a ingestão controlada de bebida alcoólica comum) é usado como alternativa emergencial, mas sempre sob supervisão médica rigorosa e acompanhamento contínuo em hospitais.
Diante do surto atual, o Ministério da Saúde reforça que a população deve evitar consumir bebidas de origem duvidosa e que o uso de antídotos deve ocorrer exclusivamente sob prescrição médica.
