O clima de tensão institucional e desespero eleitoral subiu de tom nos bastidores do poder em Mato Grosso. O conselheiro Sérgio Ricardo, presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), mandou um recado duro e direto para conter as investidas do ex-governador e pré-candidato ao Senado, Mauro Mendes (União Brasil). Incomodado com o cerco fiscalizador do órgão de controle sobre contratos públicos da atual gestão, Mendes desceu ao nível do ataque pessoal e tentou desqualificar a atuação dos conselheiros. A resposta de Sérgio Ricardo foi cirúrgica, avisando que a corte de contas “não é decoração do Estado” e que o tribunal não vai se curvar a pressões ou chiliques de políticos emparedados.

A irritação descontrolada de Mauro Mendes e seus aliados na Assembleia Legislativa tem motivo claro. O avanço das auditorias do TCE-MT mexe em feridas expostas da administração estadual, complicando a vida do governador Otaviano Pivetta (Republicanos). Sentindo o cheiro de queimado na campanha e com medo de ver o palanque governista desmoronar devido aos pífios índices de aprovação de Pivetta, Mendes decidiu blindar o aliado partindo para a agressão cega contra as instituições. O presidente do tribunal, contudo, deixou claro que o órgão cumpre um papel constitucional de defesa do erário e que nenhuma candidatura ou autoridade está acima da lei.

Ao sair em defesa intransigente de Otaviano Pivetta, Mauro Mendes demonstra não apenas arrogância, mas uma preocupação latente de quem vê a história se repetir como tragédia política. Analistas políticos de Cuiabá apontam que Mendes está trilhando exatamente o mesmo caminho perigoso e melancólico de Dante de Oliveira em 2002. Naquela oportunidade, Dante, ostentando o status de ex-governador e candidato ao Senado, defendeu com unhas e dentes o seu sucessor e candidato ao governo, Antero Paes de Barros. O resultado daquela soberba foi uma derrota histórica nas urnas: apesar da boa avaliação da gestão de Dante, o peso dos erros e o desgaste do candidato escolhido arrastaram todo o grupo político para o precipício eleitoral.

O nervosismo que emana do comitê governista reflete o isolamento de um grupo que se acostumou a mandar sem ser questionado. Confrontado com a realidade das urnas e com a vigilância implacável do TCE-MT, o ex-governador tenta criar cortinas de fumaça para esconder que a pré-candidatura de Pivetta simplesmente não empolga o eleitorado. Ao tentar peitar o Tribunal de Contas para salvar o seu herdeiro político, Mauro Mendes arrisca queimar o próprio capital político na fogueira da vaidade, caminhando a passos largos para reviver o fantasma do fracasso de Antero e carimbar o passaporte de sua própria derrota na disputa pelo Congresso Nacional.