O rastro de discursos otimistas sobre a inserção de Mato Grosso nas rotas turísticas globais colidiu com a dura realidade técnica da malha aérea nacional. Durante uma rodada de conversas nos bastidores, o ministro de Portos e Aeroportos colocou o Aeroporto Internacional em Várzea Grande (Marechal Rondon) na suposta “primeira página” dos planos federais de expansão de voos. No entanto, a retórica festiva logo deu lugar a uma cortina de ceticismo quando o próprio chefe da pasta admitiu as severas dificuldades enfrentadas pelas companhias para consolidar e manter frequências internacionais regulares a partir da capital mato-grossense, frustrando o comitê de empresários do setor.
A engenharia para atrair rotas estrangeiras esbarra em um racha mercadológico complexo, que vai muito além da boa vontade política em Brasília. O ministro pontuou que, embora o estado ostente a força avassaladora do agronegócio e o potencial ecológico do Pantanal, a sustentabilidade financeira de uma rota internacional de passageiros exige uma demanda contínua e assentos cheios em ambas as direções. O desarranjo econômico provocado pelos altos custos do combustível de aviação (QAV) e a falta de conexões integradas com os países vizinhos da América do Sul fazem com que as companhias aéreas recuem e prefiram centralizar suas frotas nos hubs tradicionais do Sudeste.
Nos corredores políticos de Cuiabá, as declarações repercutiram como um severo banho de água fria nos marqueteiros governistas, que vinham utilizando a privatização e as obras de modernização dos terminais pela concessionária Centro-Oeste Airports (COA) como vitrine de internacionalização. A oposição na Assembleia Legislativa aproveitou a fala ministerial para apontar que, apesar dos milhões investidos em fachadas modernas, o rastro de passageiros internacionais continua sendo uma promessa distante. Enquanto o comitê federal promete seguir estudando incentivos fiscais para destravar o setor, o rastro dessa admissão prova que voar direto de Cuiabá para o exterior continuará sendo um artigo de luxo no limite do papel.
