As urnas no Peru encerraram um dos capítulos mais sangrentos e imprevisíveis da história política recente da América Latina com um resultado de pura agonia. Em uma apuração voto a voto que deixou os comitês centrais em completo desespero, Keiko Fujimori foi eleita presidente da República com 50,13% dos votos válidos. A vitória cirúrgica da líder do partido Força Popular encerra uma espécie de maldição política após três derrotas consecutivas em segundos turnos e marca o retorno triunfal do fujimorismo ao Palácio de Pizarro, deixando para trás um rastro de forte divisão ideológica e desconfiança institucional nas províncias peruanas.
O rastro da apuração oficial conduzida pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) expôs as vísceras de um país fatiado ao meio pelo radicalismo das propostas. Keiko conseguiu consolidar sua vantagem principalmente na região metropolitana de Lima e nos grandes centros comerciais, sufocando a reação das bases de esquerda que orbitavam o comitê adversário. Com uma diferença que operou o tempo todo na margem do erro estatístico, a oposição tentou de todas as formas criar uma cortina de fumaça jurídica nos bastidores da Justiça Eleitoral, questionando atas e exigindo auditorias severas em cédulas rurais para tentar melar o resultado das urnas.
Nos bastidores da diplomacia e da segurança pública internacional, o comitê de transição de Keiko Fujimori já se movimenta para tentar amortecer os impactos do desarranjo econômico que paralisa o país. A nova mandatária terá o desafio imediato de governar sem uma maioria sólida no parlamento e sob o fantasma das investigações de corrupção que historicamente assombram sua família. Enquanto as lideranças da direita celebram a contenção do avanço esquerdista na Cordilheira dos Andes, movimentos sociais começam a organizar protestos nas ruas, provando que a governabilidade do Peru continuará caminhando no limite da estabilidade.
