A desfaçatez nos bastidores do poder em Brasília parece não conhecer limites. Em um movimento que chocou o meio jurídico e foi recebido como um verdadeiro acinte pela opinião pública, a defesa do senador Jaques Wagner (PT-BA) acionou formalmente o Judiciário com um pedido urgente. O líder do governo de Luiz Inácio Lula da Silva no Senado, que teve a sua residência invadida por agentes federais em uma fase recente da operação contra as fraudes do Banco Master, quer agora que a Justiça anule toda a ação e ordene a devolução imediata dos 55 mil dólares e 33 mil euros em espécie que foram confiscados em seu endereço.
A petição assinada pelos advogados do parlamentar baiano baseia-se em uma tentativa de encontrar brechas burocráticas para invalidar o robusto trabalho de investigação da Polícia Federal. A defesa alega supostas irregularidades técnicas no cumprimento dos mandados judiciais para forçar a devolução do dinheiro vivo. A manobra tenta apagar o rastro material do crime, ignorando o absurdo ético de um homem público de alta confiança do Palácio do Planalto guardar uma verdadeira montanha de notas em moeda estrangeira dentro de casa enquanto é investigado por favorecer o banqueiro preso Daniel Vorcaro.
De acordo com os relatórios confidenciais que basearam a ofensiva da PF, Jaques Wagner vinha sendo monitorado por atuar como o braço político dos interesses do Banco Master dentro do Congresso Nacional. Os investigadores reuniram provas telemáticas e depósitos que apontam que a fortuna em espécie fazia parte de um duto contínuo de propinas, que incluía ainda o financiamento de imóveis luxuosos e mimos nababescos em troca de pressões legislativas. A insistência do senador em reaver as cédulas, mesmo diante da gravidade das denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro, evidencia o nível de arrogância e a certeza de impunidade que contaminam a cúpula do governo federal.
Enquanto o Planalto assiste em silêncio ao desgaste provocado pela audácia de seu principal articulador político, analistas apontam que a investida jurídica da defesa pode se transformar em um tremendo tiro no pé. Ao invés de acalmar os ânimos, a exigência pelos dólares e euros joga ainda mais holofotes sobre o caso e enterra qualquer tentativa da esquerda de abafar o escândalo. Com a Polícia Federal mantendo o cerco fechado e apresentando novas conexões financeiras da organização criminosa de Vorcaro, a tentativa de Jaques Wagner de reaver a dinheirama serve apenas para confirmar que, no submundo do colarinho branco, a pressa em salvar o patrimônio oculto sempre fala mais alto que a moralidade pública.
