A esperança do funcionalismo público de Mato Grosso de reaver as perdas inflacionárias do período da pandemia encontrou um obstáculo intransponível na retórica direta de Otaviano Pivetta. O vice-governador descartou de forma peremptória qualquer possibilidade de pagamento da Revisão Geral Anual (RGA) referente aos anos de 2020 e 2021, afirmando que não pretende fazer “aceno para a mentira” ao tratar de uma pauta que considera juridicamente inviável. Amparado pela Lei Complementar Federal 173/2020, que proibiu reajustes salariais durante o estado de calamidade pública, Pivetta sinalizou que o governo estadual prefere o desgaste do embate com os sindicatos à aventura de criar uma despesa bilionária e continuada que poderia desestabilizar o atual superávit mato-grossense.

A postura de Pivetta revela o pragmatismo de uma gestão que, desde 2019, elegeu a austeridade como pilar de sobrevivência política. Ao classificar a demanda do Fórum Sindical como uma “mentira”, o vice-governador não apenas nega o benefício, mas desqualifica o discurso das entidades de classe, expondo o abismo factual entre o que os servidores consideram um direito e o que o Estado define como impossibilidade técnica. O fato é que a administração Mendes/Pivetta utiliza o fantasma da crise fiscal passada como um escudo para evitar concessões, mantendo o controle rígido sobre a folha de pagamento enquanto direciona o excedente orçamentário para obras de infraestrutura, onde o retorno político é mais visível e menos burocrático que o contracheque do servidor.

Para o servidor público, a fala do número dois do Executivo é o ponto final em uma novela que se arrasta pelos tribunais e mesas de negociação. Enquanto os sindicatos tentam ressuscitar a discussão com base em índices inflacionários acumulados, o governo se mantém entrincheirado na legalidade da norma federal que congelou salários em troca de socorro financeiro aos estados. O desfecho factual dessa queda de braço é uma mensagem clara ao mercado e à sociedade: em Mato Grosso, a política de valorização do funcionalismo termina onde começa o limite de gastos, provando que, na balança do Palácio Paiaguás, o “equilíbrio” sempre pesará mais do que a reposição do poder de compra de quem carrega a máquina pública nas costas.