O Brasil, em um olhar superficial, parece uma nação ferida pela divisão. Contudo, a grande maioria da nossa população — facilmente 90% ou mais — deseja, no fundo, os mesmos pilares de bem-estar. A crise não está nos nossos objetivos, e sim em quem permitimos que defina o que é “o outro lado”. A política insiste em nos apresentar uma opção binária, mas essa lógica não se sustenta, especialmente quando confrontada com a realidade brutal dos nossos desafios diários.

Enquanto gastamos energia na polaridade criada, o país enfrenta uma falência sistêmica nos serviços essenciais. A violência urbana não é uma pauta ideológica, é um fato: o Brasil mantém uma das maiores taxas de homicídio do mundo, e a sensação de insegurança domina nossas cidades. A educação segue estagnada, com dados recentes do PISA indicando que a maioria dos jovens não alcança o nível básico de proficiência em leitura e matemática. Na saúde, a defasagem é cruel; a fila do SUS se alonga enquanto a discussão sobre a gestão fica na superficialidade. E, no século XXI, mais de 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada, e quase 100 milhões vivem sem coleta de esgoto, uma calamidade que impacta diretamente a saúde pública e o desenvolvimento econômico.

Estes são os focos que deveriam unificar o debate, mas o estratagema é antigo: convencer o cidadão de que seu vizinho é a ameaça mais perigosa é o meio mais fácil de proteger o sistema que já existe. Criar a polaridade é a tática. Manter a discórdia é a fonte de lucro.

A raiz desse problema é a impunidade, que opera em todos os níveis. Não se trata apenas da impunidade dos crimes de rua; trata-se da impunidade de políticos flagrados em desvios, de empresários que fraudam o sistema e da baixa taxa de resolução de crimes violentos, que incentiva a repetição da barbárie. Quando a lei não se aplica de forma justa para todos — do crime comum ao de colarinho branco —, a credibilidade do Estado desaba, e o cidadão perde a referência do que é certo.

O engajamento cívico não é sobre escolher um lado para brigar. É sobre compreender o cenário, deixando de lado a paixão cega para exigir soluções concretas para esses dados alarmantes. Se o nosso país se sente tão fragmentado, talvez a solução não seja buscar a união forçada, mas sim investir em análise clara e na desativação do conflito, concentrando a pressão popular onde ela realmente importa: na cobrança por resultados em saúde, educação, saneamento e, principalmente, no fim da impunidade estrutural. Este é o ato fundamental de liberdade e de responsabilidade com o futuro de nossos filhos.